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Contos da Montanha
Miguel
Torga
Na carvalha da Arçã os pensamentos mudaram-lhe de rumo.
A tosca memória erguida pela morte do Joaquim Teodoro, assassinado
naquele sítio, chamou-o a uma realidade mais dura. O Joaquim Teodoro,
ao cabo, era ladrão também. Não de caminhos nem igrejas,
é certo, mas de roleta, que dá mais e sem nenhum trabalho.
Basta lume no olho e dedo. Justamente o forte do Joaquim Teodoro... Que
habilidade!
Isso então na vermelhinha não havia segundo!
O mais pintado entregava-lhe ali o seu e o de quem calhasse. Artes do
diabo! Mas o Videira, quando no dia da festa lhe passou para as mãos
o último tostão, jurou-lhe que no ano que vinha não
vigarizava ele e mais ninguém. Dito e feito. E ali estava agora
a alma do Joaquim Teodoro pintada de branco no granito, entre línguas
de fogo, de mãos erguidas a pedir um padre-nosso!
E se ele, Faustino, tirasse o chapéu e atendesse a imploração?
Um padre-nosso antes de roubar a Senhora da Saúde tinha a sua graça!
Apesar de travado por estes pensamentos desconsolados, caminhava depressa.
E, à medida que a carvalhada foi ficando para trás, a imagem
do Joaquim Teodoro começou a desvanecer-se.
Insensìvelmente, todo ele ia aderindo à realidade erma e
negra que o cercava. Também onde raio da Santa viera fazer o pouso!
Era mesmo desafiar um homem. O pior é se...
Mas não. A sorte dele havia de ser caipora, que encontrasse a caixa
sem um vintém?
A esta íntima interrogação, os olhos responderam-lhe
bruscamente que chegara. A dois palmos do nariz viam-se as paredes da
ermida a reluzir.
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